Mexeu com todas

 Nesta semana, a meu ver, vivemos um dia histórico no meio dessa luta tão dura

Não dá pra aprender nada nem pra crescer de jeito nenhum se o medo de ser ridículo for mais companheiro do que a vontade de conhecer e realizar. O maior trunfo da coragem é, antes de mais nada, a decisão de se expor, não é? Escolher o risco apesar dele, ou, ainda melhor, por causa dele. Lembro da primeira noite no night club do hotel Méridien de Abu Dhabi, minha pequena estreia como a “nova cantora brasileira”. Casa cheia, por volta das 22h subi ao palco, peguei o microfone com muita firmeza e disse, convicta: “Good morning!” Ah, não… E meu vocabulário não me permitiu nada mais, a não ser passar o primeiro set inteiro me condenando.

Ser mulher, sozinha, brasileira e ainda cantora já trazia uma exposição por si só. Eu tinha algumas “proteções”. O hotel era francês, o manager era muito gentil e sempre ia nos ouvir com sua namorada. O pai da tecladista era embaixador do Brasil em Abu Dhabi. Fiquei muito amiga de pessoas do staff, que também iam sempre nos prestigiar. Estava razoavelmente rodeada de amigos. Mas foram cinco meses morando no hotel, trabalhando seis dias por semana e cantando à noite. Muitos foram os momentos de ter que me virar com minha pouca idade — fiz 27 anos lá — e muitas frases jogadas no ouvido. Não quis apurar o que significaria “ser boazinha” pro marroquino que me perguntava sobre isso toda semana, alegando ter conhecido anteriormente uma brasileira, e fingia não entender quando um outro daquela área insistia para que eu lhe fizesse um chá no meu quarto, e assim por diante.

Hoje, mulher madura, tentando me manter pensante e atenta, percebo como fui solitária nesse quesito. Não comentava com ninguém, focada em trabalhar e talvez protegida por uma certa criancice, que insistia em me fazer olhar para os aspectos mais bonitos da viagem. Precisamos sempre rever nossas atitudes viciadas de oprimidas, diante das atitudes viciadas dos opressores. Nosso vício, como mulheres, tem um aspecto parecido com o dos machistas, que é achar isso “normal”. Mas não pode ser normal, ainda que seja secular, vivermos tendo que impor respeito na marra, tendo que aceitar assédios e agressões, disfarçadas de cotidiano. Quantas e quantas vezes ouvi a máxima “homem é assim mesmo”. Assim como? Conheço muitos homens que não se identificam com essas atitudes.

Nesta semana, a meu ver, vivemos um dia histórico no meio dessa luta tão dura. A carta da figurinista Susllem foi muito comovente e certeira. Segundo ela, foram oito meses de tortura, imposta pelo “galã” José Mayer, que parece ter caído na armadilha mais primitiva da arte de atuar, achando que podia tudo pra sempre. E é esse ponto que mais me chama a atenção. Quantas e quantas vezes, onde foi bem-sucedido e nunca sofreu consequências de suas investidas, ele teve certeza de que tinha todo o direito e talvez até o sórdido dever de lançar seus dotes de predador sobre mulheres que tinham pouca chance de defesa? Um homem de 67 anos, que faz sucesso há décadas, não sejamos ingênuos, quantas vezes deve ter colocado mulheres nessa situação? Quantas vezes teve a ousadia de tacar-lhes a mão nas partes íntimas, como se essa invasão não fosse crime?

José Mayer fez a única coisa que poderia ser razoável, depois de tudo o que foi revelado, pediu desculpas e se mostrou arrependido. Isso é mais importante do que apurar o quanto de sinceridade existe em suas palavras. Foi uma carta inteligente e clara. Pai de uma menina, pode até ser que lhe tenham caído algumas fichas, pode até ser que tenha olhado para sua esposa e lembrado que o vento que venta aqui é o vento que venta lá. Que elas também certamente têm exemplos de mal-estar na rua, com atitudes parecidas com a sua. O que teria feito o ator, ao saber que um homem tocou as partes de sua filha ou de sua mulher, pelo simples fato de ser homem e se julgar detentor dessa possibilidade?

Não sei se o “mundo mudou”, como disse o ator em sua carta, mas sei que nós, mulheres, estamos mudando, sim. Por isso, tudo está vindo mais à tona. Que a ferida se exponha todo dia, que possamos dar as mãos, marchar juntas, cuidar umas das outras, na medida desse impossível que é o machismo e seus inúmeros tentáculos. Assim que a carta de Susllem foi postada, mulheres de todas as partes começaram a se mobilizar, assinar, gritar junto com ela. Sua coragem nos encoraja, nosso apoio lhe dá suporte.

Fui na marcha das mulheres no dia internacional. Muito forte e emocionante. Mulheres de todo tipo e essencialmente jovens, muito jovens, e muitas levaram seus filhos. Acredito que esses bebês, colados aos seus peitos, que ecoavam palavras de ordem, possam fazer algo melhor. Elas, nós, gritávamos: Nenhuma a menos! Feminismo é revolução! Mexeu com uma, mexeu com todas! É isso.

Zélia Duncan – cantora brasileira.

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